A Travessia
Corpos que Passam
O medo cega. São palavras certas. Já éramos cegos no momento em que cegamos. O medo nos cegou; o medo nos fará continuar cegos.
— Saramago, Ensaio sobre a Cegueira.
Nada se esperava e, embora pudesse esperar, me preocupava apenas em me alinhar em paz diante da frente da guerra que não se ganha.
É difícil atravessar a rua em frente ao condomínio. A vizinha me advertiu: a cultura do ódio me atropelaria de propósito.
A cultura do ódio justificaria minha morte.
Alguém mataria — por motivação própria ou amparado por essa cultura que transformou odiar em prática. Meu corpo exposto no chão ou meu corpo em silêncio, aguardando o momento de atravessar entre os carros, não significaria nada. É banal porque matam. Silenciam corpos. Drenam vidas.
O corpo fica à mercê dos acordos diplomáticos firmados entre a vida, a morte e essa guerra . que insistem em dizer que existe.
Não falam que numa guerra os dois lados precisam manter poder bélico. Penso mais em extermínio e perseguição Fiquei sabendo de pessoas que saem de casa com a crença real de que podem matar.
E acredito que essas mesmas saibam que outras saem preparadas para morrer.
Não se sabe quem, nesse duelo, terá a vida ceifada, o corpo destruído ou a liberdade contida. É dente por dente, olho por olho — e assim todos terminaram mortos.
A dor da bala perdida queimando ao entrar num corpo que não é o meu, mas que doía como se fosse. Medo o tempo todo — como se, em caso de incidente, a morte já estivesse prevista.
O porteiro me contou de um dia na praia. Um grupo conversava na areia até que o clima mudou vários homens contra um, primeiro palavras, depois agressões. Em seguida, todos contra um — e o pedaço de pau que o condenaria.
Será que ele sabia do risco de estar ali? Será que, ao sair de casa, fez o sinal da cruz?
Na realidade do ódio, todos soam como capatazes articulados de um mal maior que ordena a violência. Se questiona? Esse outro
— difuso, ditatorial — que age pelas beiradas ou aparece estampado em manchetes, feito corpos no chão.
Um garoto também tentava atravessar a rua. Pegou distância, recuando até encostar no muro.
— Ele vai correr?
Olhei para os carros, calculando a equação. Não daria tempo,e ele seria atropelado pelo trágico.
Ele me viu olhando. Quando nossos olhares se cruzaram, soube que podia atravessar. Desviou os olhos, puxou o ar, guardou fôlego.
Atravessamos.
Mas antes, Me desloquei do eu.
Precisei entender o mecanismo de atravessar a rua quando se pode morrer pelo ódio, pela pressa, pela raiva — ou apenas por ser corpo.
Me assustei com a pequenez de ser. Dei dois passos para trás e trombei no carteiro.
Todos caminhávamos em direção a algo que fosse, ao menos, seguro.
Atravessei. E pareceu simples quando entendi que, tanto para quem mata quanto para quem pode morrer, o caminho é o mesmo.
Leva ao lugar nenhum.
Não sabem por que matam — não se sabe por que se morre.
Soube ontem que sobreviver é promessa mínima de vida.
Um acordo que se faz sem garantias.
Corpos que tentam passar.


